A música é uma herança de família. Meu bisavô era artesão de violino e dentro da minha casa sempre teve muito som de boa qualidade. Escutava bolero, música italiana como Pepino Di Capri, e brasileira, como Dolores Duran e por aí vai.

Quando vim da Paraíba para o Rio de Janeiro, meu tio Walter, irmão da minha mãe e que é um pandeirista da melhor qualidade , foi quem exerceu maior influência para a minha ligação com o samba. Ele tinha um grupo e eu o via tocando, acabei aprendendo a tocar pandeiro com ele. E vendo esse grupo nas chamadas Rodas de Samba, a oportunidade de pegar outros instrumentos e participar acabou surgindo naturalmente.

Os anos foram passando e de espectador abusado, moleque que entrava na roda para pegar uma rebarba, passei a ter meu próprio grupo. Começou com os amigos do Juventus, que eram da Ladeira dos Tabajaras e formavam o Bloco Vila Rica, que depois virou Escola de Samba. Lá em cima havia os ensaios que a gente freqüentava e aqui embaixo, na época do Carnaval, a gente se reunia na Figueiredo de Magalhães esquina com a Domingos Ferreira para ficar batucando. Na adolescência um dos grandes divertimentos era esse. Saíamos no Bloco Vila Rica. Depois a festa aqui na esquina começou a ganhar mais adeptos e um movimento. Começamos a dar a volta no quarteirão, o que arrastava sempre uma boa galera.

Já com 18 anos, passei a me ligar nas Escolas de Samba porque tocávamos no nosso bloco da esquina os sambas-enredo das Escolas. Os antigos a gente conhecia todos. E o fascínio me levou até a Avenida Presidente Vargas . A gente ia para lá para penetrar, tentar participar do desfile das Escolas de alguma forma. E quase sempre conseguíamos passando entre os tapumes. Nós nos misturávamos e podíamos ver um pouquinho. Foi numa dessas que surgiu a Estação Primeira de Mangueira na minha vida. Um fenômeno desses que não sei explicar.

Certa vez, numa roda ao lado de grandes bambas da Mangueira, ouvi Nelson Sargento, Lecy Brandão, Alcione, cada um contando da sua ligação com a Escola. Raízes, encontros, enfim, cada um tinha uma boa história para contar. Eu não tinha como explicar. Fui obrigado a dizer que minha ligação com a Mangueira era pura paixão. Só sei dizer que quando vi a escola na avenida pela primeira vez, me apaixonei. Já escutava falar em Cartola, Sargento tinha ouvido alguns sambas, mas ver a Verde e Rosa mudou minha vida. Era como um encontro que tinha que acontecer algum dia e aconteceu.

O primeiro desfile pela Mangueira foi em 1974. O responsável foi o radialista Loureiro Neto , que é de Copacabana e era zagueiro no time de futebol de areia do Maravilha. Ele morava na Rua Bolívar e me chamou para desfilar na Ala Independentes da Bolívar, organizada pelo Chico Peixeiro. Isso para mim foi uma grande honra. Aceitei o convite na hora e fui. Foram dez anos seguidos saindo pela Escola até que fui jogar na Itália.

Voltei ao Flamengo em 1989, mas já tinha passado o Carnaval. Em 1990, estava eu de volta à Mangueira. Mas com uma novidade. Encontrei a Alcione e ela me perguntou sobre a possibilidade de eu levar meus filhos para desfilar na Mangueira do Amanhã. Achei interessante. Rodrigo e Juliana estavam na idade, mas Carol ainda era muito pequena. E eles foram na quinta-feira de Carnaval para a avenida. Adoraram e passaram a ter uma identificação também. Até hoje eles desfilam pela Mangueira.

A união Carnaval e futebol têm um detalhe legal, especialmente na minha vida. Na época das grandes conquistas do Flamengo se deu a simbiose do clube mais popular com a Escola mais popular. Duas de minhas grandes paixões. A Mangueira representa algo especial. A gente vai aos ensaios e fica no meio do povão, o Barreto arruma uma mesa perto da bateria e a curtição é total. Ali é a extensão da minha casa.

Em resumo, é como diz no samba. “só depois de Flamengo e Mangueira que ela manda no meu coração”. Pode parecer pouco caso com a mulher, mas não é. Converti minha esposa Heloisa em Mangueirense, já que ela era Salgueiro, e foi a música, o samba, que nos uniu.



Música e encontro

A história é bem curiosa. Além de desfilar, das rodas de samba, acabei virando cantor em 82, com Povo Feliz, hino da seleção que foi à Copa conhecido como Voa Canarinho. Nas rodas, informalmente cantava Jorge Ben, Martinho da Vila - este talvez tenha sido a grande referência. Depois vieram Beth Carvalho, Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal. Muitas heranças do Cacique de Ramos, onde eu ia com o amigo Alceu Maia, que tinha sido companheiro de futsal no Flamengo, no time de 70. Ele sempre foi um grande tocador de cavaco e nos encontrávamos nas rodas.

Pois quando a seleção de 82 se preparou para a Copa, surgiu a idéia de uma música para embalar o time. Foi assim que nasceu aquele disco , que vendeu quase 700 mil cópias em 20 dias . O mais curioso não foi isso. Na véspera de gravar o Povo Feliz, apesar da recomendação de Alceu para que eu cuidasse da voz, eu saí com Edivaldo “Cavalo”, lateral da seleção. Fomos para um pagode no Bar do Kalil, que existia na Avenida Bartolomeu Mitre. Resultado: cantei até às 6h da manhã e foi lá que conheci Heloisa, minha esposa e com quem tenho meus três filhos.

Alceu passou a ser meu mentor musical, referência numa área que extrapolava a questão das rodas de samba e passava a ser quase profissional. Me recordo da sensação estranha que tive ao me ver no Programa do Chacrinha divulgando o meu trabalho, que não era o futebol, e sim um disco. Era uma situação muito diferente.

Depois do sucesso de Povo Feliz, ainda gravei em 1986 um disco para a Seleção e, em 95, lancei um CD com várias músicas em comemoração ao Centenário do Flamengo. Tudo com a chancela de Alceu Maia, que é padrinho do meu filho Rodrigo. Até hoje a gente está junto sempre que pode. Cantando samba, tomando uma cervejinha e jogando conversa fora, elementos que formam a essência de uma legítima roda de samba.

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